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O brega relativizado

Waldick é a cara da minha infância. Eu morava aqui em SP, num bairro fabril onde reinava a vitrolinha da vizinhança aos berros nos finais de semana. Tínhamos também Odair José e todo o subestrato da Jovem Guarda, e na minha cabeça comum Roberto Carlos não ficava muito longe de seus imitadores, como Paulo Sérgio. Tínhamos também Don & Ravel, que cantei inúmeras vezes, como qualquer boa estudante - “Eu te amo, meu Brasil” fazia parte do repertório da escola. Aliás, essa muxquinha me emociona até hoje, única e exclusivamente por causa da boa infância que tive.

O tempo passou, mudamos para o Rio, onde a música brega também rolava, mas com ares de alguma coisa mais palatável naquela aldeia: Miss Lene (na verdade Frankslene), eu lembro, era bem consumidinha por garotas menos… paraíbas, digamos.

O fato é que, por razões que ainda precisam de estudo, toda música brega que dá certo prazer de cantar acaba pra posteridade, e cedo ou tarde algum cantor “aceitável” acaba lhe dando um verniz: quem não curte soltar a voz, num misto de sentimento e deboche: “Como uma deusaaaaaaaa”? Ou “Eu não vou negar você é meu doce mel, meu pedacinho de céu, eu não vou negaaaaar….”. Ou, das minha preferidas: “Você não é doce de coco, mas enjoei de vocêêêê…!”, ou Deixavas-me em casa, me trocando pela ooooorgia…”.

Waldick foi um dos que, em vida, ganhou dois resgates que me vêm à cabeça: 1) o título do livro de Paulo César de Araujo (o mesmo da biografia proibida de Roberto Carlos), Eu não sou cachorro não. E o documentário da Patrícia Pilar. Mesmo antes disso, Waldick havia se firmado como símbolo disso tudo na cabeça do povão, enquanto o RC trilhava a longa escada que ia da pop Jovem Guarda aos shows em que ele canta, para uma platéia selecionadíssima, “Por que me arrasto aos seus pés?”.

RC na Urca, WS na Ilha do Governador. O que define um cantor na posteridade? Uma música? Eu sei lá.

Só sei que hoje saiu na Folha uma matéria sobre jingles de candidatos às eleições, e este ano a coisa está particularmente feia em São Paulo. Chego até a desconfiar que os candidatos acham o povão mais povão do que realmente é. Os nhé-nhé-nhé de fundo dos candidatos a vereador e seus partidos estão de irritar mesmo, não só a mim mas, acho, ao “público-alvo”, aquele cuja única importância para nossos representantes é a tonelada/hora mesmo.

Em SP há, nas últimas eleições, apenas dois jingles que “calam fundo” no hipotálamo: o de Eymael e o do Levy Fidelix. A ambos resta a memória pela sua profunda idiotice, mais ou menos como o racional do anúncio da baratinha do Rodox.

Ao contrário da música brega clássica, gostaria de crer que esses jingles rendam apenas algumas marteladas na memória da pessoas.

O resto, nem isso. Dentro do espírito brasileiro, que sempre precisa de uma musiquinha pra animar, os jingles irritantes servem tanto ao “Betão do Lava-Rápido” como à Marta, ao Kassab e ao Geraldo (que este ano levou de vez pro audiovisual essa coisa de tomar cafezinho em botequim de periferia).

É com dor que tenho de admitir, mas jingles eleitoreiros bons foram aqueles do PT doutrora, voltados pra crassimédia. Tenho certeza que eles mexeram no emocional de muita gente e renderam votos à mancheia. E deu no que deu.

Hoje a coisa despencou de vez. Não sei se ando pessimista, mas tenho medo que os marqueteiros estejam fazendo a coisa certa.

Azopissão de cada um

A crítica da Folha realiza um mundo melhor e mais igualitário: Merdilaine e Merdson pegariam um avião, passariam o mês inteiro hospedados no Hyatt Nações Unidas e alugariam carros para sua locomoção durante duas semanas, para ver o show de Caetano & Roberto em homenagem a Tom Jobim e depois o da Mandonna. Teriam seus ingressos entregues em casa, sem ter de acampar na calçada, pois o excesso de procura seria exterminado. Curtiriam as compras na cidade entre um evento e outro. O governo subsidiaria suas maquinetas digitais, pagaria as despesas e agentes especialmente treinados pela Abin levariam um lero com os patrões pra liberar os dois “na boa”.

E assim, Merdilaine e Merdson realizariam seu grande sonho de não só ver a Mandonna, mas antes ter uma aula e aprender na marra que um-cantinho-e-um-violão é coisa ba-ca-na!

Despesas totais de Merdson: R$ 1.300,00. Show da Mandonna: R$ 160 a R$ 600. Show do Caetano e Roberto: R$ 30 a R$ 360.

Cantarolar “Dindi”, “Samba de verão”, “O século do progresso” e depois engatar “American Pie”, enquanto lava a louça: não tem preço.

  • Fotos: (Luciana Bonadio, G1). Uzpóbri coitadinho sem acesso à bossa nova e a sua saga de sofrimentos: aqui.

“Meu velhinho simpático!…” é um código de família estabelecido a partir de um episódio durante um café com minha imensa e barulhenta família lá no RJ. Foi quando Carlos Drummond de Andrade morreu. Não sei bem os detalhes, mas a frase foi dita quando a criatura, nessas admirações repentinas que vêm à tona quando a celebridade bate as botas, pegou emprestado um livro, pressionou-o contra o peito e disse isso aí. E é evocado até hoje aqui em casa toda vez que alguém força amizade com outro que nunca viu mais gordo. (Mas tem a entonação certa, não é pra ser dito assim no mais.)

Com Gandhi foi a mesma coisa. Como acontece com os mitos bonzinhos, todo mundo se apropria do cara como bem lhe apraz. Vamos dizer que é, assim, um copyleft moral e corpóreo; Buda, Jesus Cristo, John Lennon, Martin Luther King, Che e os Mamonas Assassinas também sofrem dessa síndrome de boneco-de-olinda, sendo levados pra lá e pra cá ao sabor da maluquice humana.

Essa foto aí é promessa que fiz ao Pablo, quando falei outro dia sobre os livros do meu avô. Faz parte de uma revista cheia de fotos, chamada Igy Történt!, de janeiro de 1932, editada pelo Magyar Hirlap, um grande jornal de Budapest que existe até hoje, e que cobre - iconograficamente - o período de 1914 até 1930. Havia falado da encadernação à mão, velha mas inteira e muito bacana (feita por Mme Mark, aqui de São Paulo, cujo selo chiquérrimo postarei oportunamente), e meu pai lembrou, com sua memória de elefante, que essa revista pintou em casa já assim, num tecido cinza, e que pertenceu a um amigo do vovô chamado Hegedüs. Batata, o nome do cara está lá, assinadinho no frontispício. Olhando melhor, percebi uma coisa sinistra: há uma gambiarra com a guarda, e tudo indica que o primeiro caderno foi colocado posteriormente à encadernação. As fotos não têm crédito, com exceção de uma (a farda de Francisco Ferdinando esburacada em Sarajevo, copyright 1931 by Pantheon Irodalmi Intézet r. t., Budapest Vilmos császár-út), que também postarei em breve. As restantes devem pertencer à revista.

Pois bem, ao ver esta foto me veio a sensação estranha de que, quando ela foi impressa, Gandhi estava vivo. Comentei também sobre suas janelinhas, e após googlar por aí conclui que a banguelice de fato veio depois, mas foi sendo omitida aos poucos, em prol de uma figura cada vez mais espiritual, edulcorada e sem qualquer laivo de humanidade nua e crua. Como o Jesus louro-dos olhos azuis e seus cílios enormes.

O fato é que, tchã-rammmm, não achei esta foto por aí, mesmo sabendo que pertence ao arquivo de um grande jornal. Ficaria, digamos, emocionada se encontrasse. Mas como a internet transformou direitos autorais num grande bundalelê, que torna simpáticos não só os velhinhos bonzinhos mas os fotógrafos velhinhos também, aí está, pra quem quiser, na base do copyleft mesmo. Mas com o crédito possível, sempre que houver, e sem marca d’água de quem escaneou, porque pobreza tem limite, pelamordedeus!

  • Fotos: acima, o Mahatma (Magyar Hirlap, 1932) e, abaixo, a legenda que acompanha a foto. Alguém pode traduzir isso aí pra mim?

La bicyclette

Estou achando esquisitíssimo esse projeto da Prefeitura/SMA de alugar bicicletas em estações de Metrô. A partir do final de setembro algumas estações da Zona Sul e Leste e Centro ja terão o serviço disponível, a título de experiência. Eles tiveram uma inspiração pariensiense, uma coisa Chanel n. 5 meia-boca, que é pra desafogar o trânsito de carros e tornar respiráveis o Metrô e os trens.

Esquisito porque é assim: nos primeiros 30 minutos, é digrátis. Depois disso, dois reais a hora. E 50 pilas a diária. As dez bicicletas disponíveis em cada estação podem ser deixadas em qualquer outra estação. Quem vai administrar o serviço (e embolsar os caraminguás) é a ong Parada Vital.

Tá bom. Agora realiza: eu moro em algum posto avançado da Zona Leste e tenho uma rotina-padrão: todo dia saio de minha casa, que é longe do metrô, pego meu carro, vou até o metrô, embarco em direção ao trabalho, e no fim do dia faço o trajeto contrário.

O que é que vou fazer com uma bicicleta alugada que tenho de devolver em meia hora, uma hora e meia? Ninguém está achando que eu chegaria em casa de bike, cansada do dia, e voltaria pra qualquer outra estação pra devolvê-la, não? E ninguém, em sã consciência, despenderia 50 paus diários só pra ajudar a desafogar o trânsito, certo? É mais barato, mais higiênico e confortável ter sua própria bicicleta.

Eduardo Jorge, secretário do Meio Ambiente, promete 25 km de ciclovias. José Luiz Portella, secretário dos Transportes Metropolitanos, diz que a medida ajuda a “promover a discussão”, que é a maneira mais fashion de dizer que está tirando o corpo fora.

Já Marcos Mazzaron, presidente da Federação Paulista de Ciclismo, mandou ver: é uma medida eleitoral, pois faltam ciclovias e bicicletários (para as bicicletas particulares) na cidade inteira. “É prematuro implantar qualquer coisa com bicicleta sem uma infra-estrutura, pois vai expor as pessoas a acidentes.”

Pois é, Marcos, também pensei nisso. E me imaginei pedalando como um animal… sei lá! Na Consolação? Na Rebouças? Já sei, na Radial Leste! Ou, quem sabe, num passeio bucólico ao Jaraguá pela avenida Mutinga? Se não me espatifasse catapultada por um buraco no asfalto, viraria patê na mão de algum motorista com um Escort amarelo filmado, com um adesivo “Total flex: carro a gasolina, motorista a álcool” no vidro traseiro.

Não vai dar certo. Paulista gosta de ir trabalhar vestido para matar, seja lá o que for que isso queira dizer. Imagina a mocinha de tailleur da JP, salto alto e cabelos de chapinha se encarapitando em um selim pra camelar por uma hora no meio da fumaça dos outros carros? E o terno do cara? E o sapato? E o cabelinho com topete perifa cunhado no gel? Não, a coisa não vai colar.

No dia em que as pessoas saírem pra trabalhar de fato - como em Paris -, e não só pra aquilo que concebem como “causar uma boa impressão”, a gente possa pensar em bicicleta. E aí, quem sabe, se as ciclovias e os bicicletários estiverem prontinhos…

  • Foto (Danilo Verpa, Folha Imagem). Fonte: Folha. Título do post também de inspiration française lembrado de Yves Montand: “Quand on approchait la rivière/On déposait dans les fougères/Nos bicyclettes…”. Ahã… Tá!

Fotos sem gravidade

Este site do fotógrafo Dudu Tresca mostra algumas fotos de sua autoria, chamadas “360 graus” e que andam na moda.

Várias imagens de São Paulo. Uma delas, perto de casa, da Praça do Pôr-do-Sol.

Outra da Liberdade: evocações gastronômicas de Tia Cris.

(Thanks, Tulio Sergio)

Bananas e seu resumé

São Paulo (ainda) concentra umas coisas que eu vou te contar. De abrigo das melhores mentes na primeira metade do século passado - como notou Mário de Andrade -, Sumpa passou a receber qualquer um que se julgasse acima dos demais. Ou seja, 99,9% da populêichon.

Isso pode ser bom ou pode ser muito ruim. Ou, numa alternativa, divertido.

Dentro do assunto, falei faz um tempinho do domínio de línguas em citações de botequim. Mas hoje, por mil analogias, penso nas apresentações pessoais. Currículo informal é o flagrante em preto-e-branco da pessoa. Não do que ela diz ser, mas do que ela verdadeiramente é. Chega a comover: aquele cerumano com dez auto-qualificações que oscilam entre o exagero e a mais deslavada mentira. Deve ser bom pra traçar alguém eventualmente. Mas não rende muito numa entrevista de RH.

Certas profissões ou ofícios são alvo da tara humana. “Adevogado”, por exemplo. Quanta gente você conhece sem OAB que posa de jurisconsulto pra vizinhança? E quando acha de pegar pivete pelo cós da bermuda? É, eu já vi… Professor é outra fissura. Jornalista? Xi, jornalista é o que há! Botou uma notícia no blog, pronto, é jornalista! E consultor de alguma coisa? Isso é um periiiiigo!!!! Escritor? Bem…, escritor eu pulo.

Fulano, músico E pintor. Fulano, editor E consultor de feng-shui. Fulano: advogado, representante, autor, tradutor, músico E filósofo. Fulana é casada, consultora de beleza E esteticista (e escritora, óóóbvio!). Fulaninho: webstylist E fotógrafo. Isso sem contar o currículo IURD: Fulanoleide: empresária.

Por vezes constato que, mais do que os atributos positivos que a gente está cansado de saber, a internet e toda a nova forma de comunicação que ela trouxe acaba colocando aqui, bem no meio da nossa cara, um monte de egoportentos vindos dos mais longínquos rincões da mente humana. A web é o ambiente ideal para as nulidades equivocadas. Primeiro porque ninguém pode comprovar nada. Segundo que a humanidade é crédula até a raiz dos cabelos. Terceiro que os agentes crêem firmemente na importância descabida de si mesmos na frente de um espelho - ou de um monitor.

No meu tempo, a pessoa tinha um ofício. E ganhava a vida com aquilo, com certo orgulho benéfico. E se mudava de carreira, ou para uma cidade maior, o fazia com um pouco de humildade, como convém aos cordatos. Hoje não: todo mundo é de um poder gritante, cuidadosamente montado entre mil maneirismos terminológicos, cigarrísticos e estilosos.

Sei… vai falando aí que eu tô ouvindo.

  • Imagem: tirinha antiiiiiiiiga (e sem data) do Angeli, que ganhei e amarelou na gaveta. Pena que perdi uma outra dessa mesma série, que apresentava “Agnobaldo Freidas: advogado”.

Clipping

Raquelitcha foi uma das entrevistadas por Luciana Romagnolli para o Caderno G da Gazeta do Povo, de Curitiba, em matéria sobre Jane Austen.

Achei o enfoque da matéria consistente: Jane Austen não tem nada que ver com biblioteca das moças, como Raquel não cansa de explicar por aí. Seus textos envolvem amor e casamento, mas definitivamente não cabem no cérebro de moçoilas assanhadas, loucas por um contrato agradável que lhes tire da pindaíba.

Para moá, o mais importante é que aos pouquinhos esse tipo de literatura vai saindo das editoras, das livrarias brasileiras, e um dia, quem sabe, o público não mais se contentará em apenas seguir o rastro de um filme romântico, cheio de vestidos lindos, decorações maravilhosas e britânicos gostosões.

Até onde sei, o Jane Austen em português é o único blog brasileiro que está levantando tudo o que há de e sobre a autora, pelo mundo e principalmente o que há disponível e/ou traduzido no Brasil. E a demanda, posso garantir, tem sido superior ao que pode resultar de uma simples fascinação de ocasião.

A matéria está toda aqui. Eu recomêêêiiiiindo.

  • Foto: Jane Austen (de pijama ainda, Raquel!!!!): Anne Hathaway em Amor e inocência (Becoming Jane), que deve sair em DVD ainda este ano.

Rolou uma liqüidação familiar. Titia resolveu largar sua casa enorme e se mudar para um apê, no que faz muitíssimo bem. Nessas, têm vindo algumas coisas de vovô para moá - notadamente livros não técnicos, coisa que prezo muito, seja para consultas, seja para restauro, seja só pelo fato de terem pertencido a ele, como algumas coisas em húngaro - o perequeték de que minha avó falava -, língua que absolutamente não entendo. (Os livros técnicos são da seara dos dois netos homens, que lidam com essas coisas.)

Estou sem a maquineta aqui para fotografar pra vocês, mas agradeço de joelhos uma coleção inteirinha de Os Pensadores, da Abril Cultural, que está limpa e alinhadinha na estante, bem aqui na minha frente. Junte a isso a coleção Jackson de Machado de Assis que era da minha avó (a outra avó) e pronto, posso começar em pensar a ter uma decoração de livros a metro. E ela (a dos Pensadores) é muito curiosa: nota-se que os 52 volumes foram devidamente lidos (uns até ficaram com a douração gasta, oxidada pelo manuseio. Outros vieram com um pedaço de papel qualquer, que obviamente serviu para marcas páginas). Mas nenhum, nenhum deles tem sequer um rasgadinho daqueles clássicos, próximos ao cabeçeado superior. Estão inteiros, todos os volumes mais os três sobre a vida dos entes - aqueles fascículos coloridos que acompanhavam os livros. Tenho tendência a achar isso quase um milagre.

Outra coleção que me veio inteirinha e inteiraça - roam-se de inveja! - é a Nosso Século, também devidamente encadernada e limpíssima.

Vieram ainda outras coleções menores, muitas também da Abril Cultural, a única editora que fez coleções basiconas vendidas em banca pra gente comum, coisa que considero uma qualidade, um momento único em Botoculândia.

E muitos, muitos dicionários, geralmente húngaro-alguma coisa. Apenas um deles tem capa. Apenas um deles envolve o português. A maioria está em petição de miséria. Todos passam por uma limpeza - um pouquinho a cada dia - e serão cobaia para minha nova empreitada restaurística daqui uns meses - o relevo em couro e a douração.

No meio dos livros avulsos, onde tem de tudo, há uma revista húngara, cujo nome não saberia reproduzir, que cobre com fotos o período de 1916 até 1930. Ela está encadernada em tecido, com o selo de encadernação de uma senhora aqui em São Paulo. São fotos interessantérrimas, desde Francisco Ferdinando e seu uniforme ensangüentado até Trotski, Lênin e Rosa Luxemburgo. Obviamente, essas fotos não se encontram por aí. Quando puder, vou postando uma e outra cujo objeto reconheci e - milagre - consegui desvendar a legenda.

Uma delas traz Gandhi. E é estranho ver uma foto publicada no tempo em que o cara estava vivo. E ele era escancaradamente desdentado. Daí pensei como o tempo vai fazendo um grande photoshop com os mitos. Um pensamento leva a outro e aventei a possibilidade de Jesus Cristo também ter sido, na verdade, banguela.

Prosseguindo: fiquei também com  telefone do vovô. Como disse um post abaixo, papai está ajeitando pra ele ser usado de fato. A mim cabe apenas limpar, com metilan, o selinho de papel do meio do discador, onde está escrito algo como “Companhia Telefônica Brasileira - aguarde o sinal de discar”, com o número antigo escritinho no meio, com a letra da minha tia.

Isso e mais um monte de outras coisas, que me obrigarão a repensar alguns móveis aqui em casa.

Podem achar estranho à vontade. Às vezes eu também acho. Até porque virão outras levas.

Echos da provincia

Tenho trabalhado como um camelo.

Ontem foi um dia típico (alarme!, alarme!): comecei às 8 da manhã e só larguei às 11 da noite, fazendo refeições com certa culpa. E depois… depois liguei um pouco a TV e fui dormir, oras…

Peguei um teco da entrevista do Caetano no Jô Soares. E foi aí que fiquei sabendo que ele agora tem um blog. E foi aí também que soube das críticas do Estado e da Folha ao seu show dos 50 Anos de Bossa Nova com o Roberto Carlos. Fui ver os três. O blog tem um dizáiguini, e tal, e não me atraí pelos comentários. Para cada cem desejando muito axé tem um que valeria a pena ler - não posso me dar o luxo de perder esse tempo. Já as críticas da Folha e do Estado , me sobrou a impressão de que ambos gostariam que Caetano bolasse uma nova tropicália a cada apresentação, ainda que seja uma homenagem a oooooutra pessoa, oooooutra entidade.

Entre tudo, me chamou a atenção um parágrafo de Sylvia Colombo, da Folha:

Eventos elitistas, onde cantar baixinho sobre o amor, a saudade, o Corcovado e as belezas da orla carioca legitimavam o privilégio e a sofisticação de uma casta.

Além do astronômico erro de concordância, senti nela (gostaram do senti… nela?) um conflito pessoal  escondido na crítica social. Ou, no popular, um cotovelo em carne viva mesmo, sem razão de ser. Essa enumeração quase-deboche…. Talvez ela ache que, ao comemorar 50 aninhos, toda a história da bossa nova deva sofrer uma ruptura revolucionária e se mudar pra Ermelino Matarazzo, num showzão digrátis num parque bem grandão, com todo mundo acompanhando “Desafinado” com as mãos pra lá e pra cá e comendo torresmo.

Não sei porque alguns pensamentos por aí sonham em ver uma maçaroca social. Uma questão de ordem, que traria ao mundo um tédio sem fim: todos usufruindo tudo do mesmo modo, pra não haver injustiça nenhuma. É como se o Capitão Nascimento chegasse de caveirão na casa do Wuonderclêisson e berrasse: Isso é o LP Chega de Saudade!!!! Ouve isso até cansar que amanhã eu volto pra colher suas impressões!!!!

Outro exemplo: na entrevista de ontem, o Jô pediu uma palhinha e comentou que toda vez que ouve “Sampa” lhe dá um troço no coração (me surpreendi - guardava essa emoção só pra mim, dããã…). Mas não dá pra imaginar “Sampa” cantada na animação, no suor, na energia, no “aí galééééééééhhhhhhrahhhhhh!!!!!”, não é mesmo? Pois é.

Pára, pô! Que saco! Cada coisa tem seu lugar nesse mundo! Há coisas jererecas, outras sofisticadas. Há sapatos baratíssimos, e os que custam uma fortuna. Há pessoas elaboradas, outras não. Há botequins e boates. Há shows caros, há shows baratos, há CDs, há LPs (!) que qualquer um pode ouvir. E cada um tem sua casa, seus gostos, seu mundo particular que pode povoar do jeito que quiser.

  • Fotos: você há de encrencar com esta foto do Olavo Setúbal, mas é que a vi ontem no Claudio Humberto e achei uma sacanagem sem tamanho com ele: não dava pra corrigir a cor? Tá bom, daí esqueci. Hoje de manhã parei no sinal e vi um homem no ponto do ônibus. Nossos olhos se cruzaram, sem qualquer fadismo. Ele também estava de terno roxo. E agora vejo Roberto Carlos nesta foto (AE). De terno em outro tom, mas ainda roxo. Será isso um aviso dos céus, tipo “Nunca use um terno roxo”?

Eu tinha lido faz uns dias que haviam roubado equipamentos da banda da  Rita Lee. E….?

Depois leio que titia resolveu oferecer 10 paus por informações quentes. Ah, legal.

Mas agora vem o Beto Lee fazer seu apelo. Pelo tom da coisa, parece que está desesperado. Foram levadas mil quatrocentas e setenta e duas guitarras dele, do pai e da mãe. Mais dois violões de Rita, e amplificadores, equipamentos de iluminação e roupas. Mas os estojos os caras deixaram, hummm…

A equipe e amigos de Rita Lee já distribuíram listas pela Galeria do Rock e pelas lojas de instrumentos musicais da Teodoro Sampaio, caso apareça algum mané por lá oferecendo o material.

Mesmo assim, Beto Lee afirma que confia na polícia. O que soa até razoável. Afinal, outro dia a polícia recuperou o quadro que faltava do roubo da Pinacoteca. O que prova que um tipo de material “único” - como creio firmemente serem os equipamentos da família Carvalho - não têm muito por onde se perder, por maior que a cidade seja. Em circuitos assim, São Paulo é um ovo. As guitarras voltam, sim. Na marra ou por desistência.

  • A produtora disponibiliza um telefone [(11) 8326-7571], com sigilo e anonimato, para quem souber alguma coisa.
  • Foto (Daniel Haidar, G1): Assim que vi a fotinho, tão bonitinha, resolvi reverberar o apelo neste humilde, porém seletíssimo e bem-freqüentado Flanela. Vai que, né?

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