O brega relativizado
Sep 5th, 2008 by Leticia

Waldick é a cara da minha infância. Eu morava aqui em SP, num bairro fabril onde reinava a vitrolinha da vizinhança aos berros nos finais de semana. Tínhamos também Odair José e todo o subestrato da Jovem Guarda, e na minha cabeça comum Roberto Carlos não ficava muito longe de seus imitadores, como Paulo Sérgio. Tínhamos também Don & Ravel, que cantei inúmeras vezes, como qualquer boa estudante - “Eu te amo, meu Brasil” fazia parte do repertório da escola. Aliás, essa muxquinha me emociona até hoje, única e exclusivamente por causa da boa infância que tive.
O tempo passou, mudamos para o Rio, onde a música brega também rolava, mas com ares de alguma coisa mais palatável naquela aldeia: Miss Lene (na verdade Frankslene), eu lembro, era bem consumidinha por garotas menos… paraíbas, digamos.
O fato é que, por razões que ainda precisam de estudo, toda música brega que dá certo prazer de cantar acaba pra posteridade, e cedo ou tarde algum cantor “aceitável” acaba lhe dando um verniz: quem não curte soltar a voz, num misto de sentimento e deboche: “Como uma deusaaaaaaaa”? Ou “Eu não vou negar você é meu doce mel, meu pedacinho de céu, eu não vou negaaaaar….”. Ou, das minha preferidas: “Você não é doce de coco, mas enjoei de vocêêêê…!”, ou Deixavas-me em casa, me trocando pela ooooorgia…”.
Waldick foi um dos que, em vida, ganhou dois resgates que me vêm à cabeça: 1) o título do livro de Paulo César de Araujo (o mesmo da biografia proibida de Roberto Carlos), Eu não sou cachorro não. E o documentário da Patrícia Pilar. Mesmo antes disso, Waldick havia se firmado como símbolo disso tudo na cabeça do povão, enquanto o RC trilhava a longa escada que ia da pop Jovem Guarda aos shows em que ele canta, para uma platéia selecionadíssima, “Por que me arrasto aos seus pés?”.
RC na Urca, WS na Ilha do Governador. O que define um cantor na posteridade? Uma música? Eu sei lá.
Só sei que hoje saiu na Folha uma matéria sobre jingles de candidatos às eleições, e este ano a coisa está particularmente feia em São Paulo. Chego até a desconfiar que os candidatos acham o povão mais povão do que realmente é. Os nhé-nhé-nhé de fundo dos candidatos a vereador e seus partidos estão de irritar mesmo, não só a mim mas, acho, ao “público-alvo”, aquele cuja única importância para nossos representantes é a tonelada/hora mesmo.
Em SP há, nas últimas eleições, apenas dois jingles que “calam fundo” no hipotálamo: o de Eymael e o do Levy Fidelix. A ambos resta a memória pela sua profunda idiotice, mais ou menos como o racional do anúncio da baratinha do Rodox.
Ao contrário da música brega clássica, gostaria de crer que esses jingles rendam apenas algumas marteladas na memória da pessoas.
O resto, nem isso. Dentro do espírito brasileiro, que sempre precisa de uma musiquinha pra animar, os jingles irritantes servem tanto ao “Betão do Lava-Rápido” como à Marta, ao Kassab e ao Geraldo (que este ano levou de vez pro audiovisual essa coisa de tomar cafezinho em botequim de periferia).
É com dor que tenho de admitir, mas jingles eleitoreiros bons foram aqueles do PT doutrora, voltados pra crassimédia. Tenho certeza que eles mexeram no emocional de muita gente e renderam votos à mancheia. E deu no que deu.
Hoje a coisa despencou de vez. Não sei se ando pessimista, mas tenho medo que os marqueteiros estejam fazendo a coisa certa.










